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  • Edgar Powarczuk

A falha serve ao que triunfa



Quando assisto o The Voice fico imaginando o destino daqueles que perderam. Aqueles que emocionaram a plateia, mas fizeram uma má escolha no repertório e foram desclassificados. Aqueles que têm uma voz espetacular, mas ficaram nervosos e falharam numa nota diante do júri. Ficarão depressivos com o mau desempenho e desistirão da carreira? Tentarão no próximo ano com ainda mais gana, aproveitando o feed back dos avaliadores? Eles se contentarão com o resultado e irão gozar da breve repercussão para tentar engatar uma nova oportunidade?


Tenho o mesmo sentimento quando vejo um empreendedor transformado em celebridade. Nas livrarias dos aeroportos eles estão comprimidos na estante abarrotada de livros com receitas de sucesso. Nestes momentos, penso naqueles outros que batalham na obscuridade, que conquistam o sucesso a sua maneira, naquilo que sua circunstância permite. Aqueles que não se tornam capa de revista.


Ou então, tenho outro sentimento pior, ainda mais comovente, quando vejo uma placa de “passo o ponto” na frente de um negócio que se encerra. Posso sentir o drama desse empreendedor obrigado a cerrar as portas, desligar seus funcionários, pagar as dívidas e olhar para os seus filhos à noite em casa.


Às vezes, fracassamos por um detalhe, uma nota errada.


As capas de revista e os estudos de caso são formatos que cultivamos ao longo dos anos para que os melhores inspirem outros empreendedores a fazer ainda melhor, na reinvenção seminal do modelo shumpeteriano de “destruição criativa”(Joseph Alois Schumpeter (Joseph Schumpeter 1883 - 1950). O sucesso empresarial vai pela capacidade do empreendedor se adaptar e aprender com os sucessos e os erros do passado. Isso não deve ser uma surpresa: é exatamente como a natureza funciona. A evolução não nos faz permanecer em falhas do passado; é sempre construída sobre o que funcionou e o que não funcionou.


Eu acredito na força do legado. Os novos empreendedores errariam menos porque tácita ou explicitamente aprenderam com outros empreendedores que mostraram antes – na dor da perda – por onde ir e, especialmente, por onde não ir.


(Há outro jeito de olhar isso: a nossa ideia de sucesso não é exatamente nossa. Nasceu do nosso pai, do nosso vizinho, do nosso patrão. Provavelmente, foi inspirada por empreendedores foras de série que nos desacomodam com seus depoimentos recheados de disposição pessoal, riqueza e heroísmo. Ok, nossa ideia de sucesso também pode ser construída pelos posts dos nossos amigos no Facebook, olimpo onde todos são bem-sucedidos.)


O problema não é o bem-sucedido merecer seu sucesso, mas o fracassado merecer seu fracasso. Quando fracassa, você é um perdedor, um loser. Por isso, o medo de falhar não está ligado simplesmente a perder dinheiro ou emprego. É o medo de sermos julgados e ridicularizados pelos outros (especialmente os mais próximos).


Neste caso, se eu nada realizar, se eu não correr riscos, não haverá fracasso e sem fracasso, não haverá humilhação. Na equação de William James nossa autoestima depende inteiramente do que pretendemos ser e fazer: autoestima = sucesso/pretensões. Ou seja, quanto maior a nossa expectativa, maior o risco de humilhação. Então, desistir de pretensões para não sofrer pode fazer sentido.

Só que não.


O fracasso se concretiza na desistência.


O processo inovativo, o progresso tecnológico, a sustentabilidade social dependem da agressiva assunção de riscos e suas falhas consequentes. Dependemos dos empreendedores e precisamos defender, respeitar e aprender com os seus eventuais fracassos. Cada tentativa errada vai fornecer ainda mais informações, ficando mais valiosa. Sem reconhecer o erro do outro, pagamos um preço que não precisaríamos.


Então, busco um trecho de Saint Exupery que li adolescente. O rei explica ao filho sobre a natureza das belas esculturas que ornamentam o jardim do palácio: “Eu te garanto que elas nascem tanto daqueles que falham nos gestos como daqueles que os acertam, porque não podes dividir o homem. Se salvas só os grandes escultores, ficas privado dos grandes escultores”.

O empreendedor de sucesso nasce dentre tantos que fracassaram. Seus erros servem de degrau e são eles que o elevam. Erro de um, êxito de outro, isso é do jogo. “O gesto falho serve ao gesto que triunfa”.

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