O que você estÔ fazendo aqui? Em busca da vocação
- Edgar Powarczuk
- 25 de out. de 2024
- 4 min de leitura
Na sala de espera do aeroporto de BrasĆlia, aguardando o voo que me traria de volta a Porto Alegre, ouvi um "chamado". Era uma voz interna, sutil, que sussurrava entre a gritaria dos alto-falantes. Escutei dentro de mim: āO que vocĆŖ estĆ” fazendo aqui?ā. Eu passava os olhos pelas pessoas agarradas Ć s suas bagagens de mĆ£o, como artefatos a serem resguardados de alguĆ©m. Olhares vagos, angĆŗstias represadas, esperanƧas ocultas. Uma sala de embarque Ć© um depósito de almas num purgatório existencial de despedidas e reencontros consigo mesmo.
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Sentado no meio daquela gente eu revisitava memórias dos jovens dias em que cruzei todo Brasil viajando na carona de caminhões e Ónibus de linha. Por passatempo, improvisado nas rodoviÔrias com cheiro de diesel e naftalina, eu inventava personagens para as pessoas em trânsito. Olhares tristes, vontades resignadas, movimentos de esperança, tremores de saudades percorrem os corpos de quem espera. Junto com o volume das bagagens, tudo isso é matéria-prima para meu devaneio.
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Quando estamos em deslocamento, revivemos esses atavismos dos sapiens caminhadores, catador de esperanças, em busca de novos ventos, como diz a linda canção:
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Eu não sou daqui, mas você tampouco
De nenhum lugar do todo
E de todos os lados um pouco
O mesmo com as canƧƵes, os pƔssaros, os alfabetos
Se queres que algo morra, mantenha-o imóvel.
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(Jorge Drexler ā Movimento)
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Na minha mochila vertiam amores num livro de poemas do Fernando Pessoa e um Walkman com fitas cassete do Djavan e Caetano. Um trem para as estrelas, de CacÔ Diegues, se lançava na voz de Cazuza. Eu vinha de nenhum lugar em direção a nenhum lugar tampouco. No fundo, eu corria atrÔs de mim mesmo.
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āO que vocĆŖ estĆ” fazendo aqui?ā, escutei novamente no mesmo momento em que a turbina de outro aviĆ£o subiu num rompante e me trouxe de volta Ć tontura daqueles dias. Aos 50 anos, eu era executivo de uma grande empresa carregando o peso da soma de todas as decisƵes perifĆ©ricas que ainda precisavam ser tomadas para manter o processo, para manter a roda girando.
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A morte abrupta do meu pai jazia como uma pedra no meu peito. Em todos esses anos eu andei com a foto dele numa dobra da minha carteira. O pessoal mais antigo tinha esse costume de lembrar entes queridos. Afinal, nĆ£o tĆnhamos celular. Era como ter uma benção, uma foto desgastada para lembrar de alguĆ©m especial e ter fĆ© para seguir em frente nos dias mais doloridos. Junto com o cartĆ£o de embarque, eu ouvia o chamado e segurava a foto com uma sĆŗplica resignada para que meu pai iluminasse o meu caminho.
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Valentim Powarczuk 1936 ā 1984
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Valentim Powarczuk, meu pai, enfartou e morreu aos 48 anos. Foi vĆtima da falĆŖncia da sua empresa. Eu era muito jovem naquele momento. AlguĆ©m me disse no velório:Ā āAgora Ć© tudo contigo, guriā. Acho que assumi a culpa por um tempo. Desde aquele momento passei a ver os negócios como ambientes letais, que podiam matar.Ā
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Houve um tempo em que ter uma pequena empresa significava que vocĆŖ nĆ£o tinha dado certo profissionalmente. O sucesso ainda significava um emprego no Banco do Brasil, num concurso pĆŗblico ou numa grande empresa multinacional. HĆ” 30 e poucos anos nĆ£o se falava, nĆ£o havia a palavra āempreendedorā no Brasil. Esse conceito era desconhecido. Uma pequena empresa era uma empresa de fundo de quintal. Na verdade, todo aprendizado sobre negócios antes do Sebrae era abordado sobre a perspectiva das grandes empresas. Rh, marketing, estratĆ©gia, diferencial competitivo eram exclusividades das grandes corporaƧƵes. E era isso que aprendĆamos na faculdade e nos MBAs.
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As pequenas empresas de fundo de quintal não tinham treinamento sobre negócios. Elas tinham um contador, e só.
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Meu pai tinha o āseuā Almeida. AlĆ©m da contabilidade, ele orientava contrataƧƵes, intercedia para emprĆ©stimos no banco, sabia dos movimentos em BrasĆlia. Quando o seu Almeida chegava na firma todos aproximavam-se para escutar sobre os assuntos dos negócios. Over night. Ativo circulante. Edital pĆŗblico. Ele era uma autoridade para meu pai e seus funcionĆ”rios, mecĆ¢nicos humildes com as unhas pretas de óleo queimado. Na oficina precĆ”ria, no meio de tratores enormes sujos de graxa e barro, todos cuidavam para o Almeida nĆ£o sujar suas calƧas brancas onde ele sempre levava um pente pequeno no bolso de trĆ”s. Ā
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O Almeida era vaidoso e sabia de tudo, mas calculou mal por anos os impostos devidos ao INSS pela empresa do meu pai. Quando fomos ver, devĆamos muito dinheiro e a empresa faliu. O contador sumiu.
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Acho que esse fantasma do Seu Almeida estava na minha cabeƧa quando fui trabalhar no Sebrae. Lembro dos longos anos de consultoria para milhares de pequenos negócios, por todo o Brasil, tentando localizar onde estava o problema daquelas empresas. Esses empreendedores precisavam aprender como cuidar melhor de seus próprios negóciosĀ dentro da realidade deles, no contexto deles. LĆ” no fundo, ao fazer esse trabalho eu tentava ācurarā negócios para que eles nĆ£o morressem, como morreu a empresa do meu pai.
Ali por 1990,Ā o Sebrae lanƧou o programa Brasil EmpreendedorĀ com treinamento gratuito e acesso a crĆ©dito para as MPEs. Espalhamos estratĆ©gias e ferramentas de negócios por todos os rincƵes do paĆs. O Sebrae fez com que a pequena empresa e seus empreendedores ganhassem dignidade e oportunidade para serem reconhecidos por sua qualidade e competĆŖncia. Todos empreendedores desse paĆs devemos ao Sebrae por esse trabalho.
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Nessa experiência extrema eu me dei conta que, na grande maioria das vezes, os maiores problemas não estavam na empresa e seus processos. O principal problema estÔ no empreendedor. Fui percebendo que são suas emoções e traumas pessoais que dirigem o negócio. São as questões inconscientes e do Ego da pessoa que orientam as escolhas do negócio. Esses empreendedores são animais sociais tentando encontrar sentido para si mesmo através do seu empreendimento. O seu trabalho é sua projeção para o mundo.
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Hoje sei que os negócios podem nos fazer sofrer sim, como fez com o meu próprio pai. Mas, também sei que os empreendimentos que lançamos no mundo são o caminho para realizar sonhos, promover vocações e dar dignidade às nossas vidas.
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Naquele aeroporto de BrasĆlia eu estava no lugar errado. Fui perceber meu propósito olhando para trĆ”s. Acho que nĆ£o escolhemos propósitos. Eles Ć© que nos escolhem. Depois de tantos anos, eu me dei conta que chegara atĆ© ali para manter empreendedores vivos. Para manter meu pai vivo. Essa Ć© minha vocação.
