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O que você estÔ fazendo aqui? Em busca da vocação

Na sala de espera do aeroporto de BrasĆ­lia, aguardando o voo que me traria de volta a Porto Alegre, ouvi um "chamado". Era uma voz interna, sutil, que sussurrava entre a gritaria dos alto-falantes. Escutei dentro de mim: ā€œO que vocĆŖ estĆ” fazendo aqui?ā€. Eu passava os olhos pelas pessoas agarradas Ć s suas bagagens de mĆ£o, como artefatos a serem resguardados de alguĆ©m. Olhares vagos, angĆŗstias represadas, esperanƧas ocultas. Uma sala de embarque Ć© um depósito de almas num purgatório existencial de despedidas e reencontros consigo mesmo.

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Sentado no meio daquela gente eu revisitava memórias dos jovens dias em que cruzei todo Brasil viajando na carona de caminhões e Ónibus de linha. Por passatempo, improvisado nas rodoviÔrias com cheiro de diesel e naftalina, eu inventava personagens para as pessoas em trânsito. Olhares tristes, vontades resignadas, movimentos de esperança, tremores de saudades percorrem os corpos de quem espera. Junto com o volume das bagagens, tudo isso é matéria-prima para meu devaneio.

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Quando estamos em deslocamento, revivemos esses atavismos dos sapiens caminhadores, catador de esperanças, em busca de novos ventos, como diz a linda canção:

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Eu não sou daqui, mas você tampouco

De nenhum lugar do todo

E de todos os lados um pouco

O mesmo com as canƧƵes, os pƔssaros, os alfabetos

Se queres que algo morra, mantenha-o imóvel.

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(Jorge Drexler – Movimento)

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Na minha mochila vertiam amores num livro de poemas do Fernando Pessoa e um Walkman com fitas cassete do Djavan e Caetano. Um trem para as estrelas, de CacÔ Diegues, se lançava na voz de Cazuza. Eu vinha de nenhum lugar em direção a nenhum lugar tampouco. No fundo, eu corria atrÔs de mim mesmo.

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ā€œO que vocĆŖ estĆ” fazendo aqui?ā€, escutei novamente no mesmo momento em que a turbina de outro aviĆ£o subiu num rompante e me trouxe de volta Ć  tontura daqueles dias. Aos 50 anos, eu era executivo de uma grande empresa carregando o peso da soma de todas as decisƵes perifĆ©ricas que ainda precisavam ser tomadas para manter o processo, para manter a roda girando.

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A morte abrupta do meu pai jazia como uma pedra no meu peito. Em todos esses anos eu andei com a foto dele numa dobra da minha carteira. O pessoal mais antigo tinha esse costume de lembrar entes queridos. Afinal, não tínhamos celular. Era como ter uma benção, uma foto desgastada para lembrar de alguém especial e ter fé para seguir em frente nos dias mais doloridos. Junto com o cartão de embarque, eu ouvia o chamado e segurava a foto com uma súplica resignada para que meu pai iluminasse o meu caminho.

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Valentim Powarczuk

Valentim Powarczuk 1936 – 1984

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Valentim Powarczuk, meu pai, enfartou e morreu aos 48 anos. Foi vĆ­tima da falĆŖncia da sua empresa. Eu era muito jovem naquele momento. AlguĆ©m me disse no velório:Ā ā€œAgora Ć© tudo contigo, guriā€. Acho que assumi a culpa por um tempo. Desde aquele momento passei a ver os negócios como ambientes letais, que podiam matar.Ā 

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Houve um tempo em que ter uma pequena empresa significava que vocĆŖ nĆ£o tinha dado certo profissionalmente. O sucesso ainda significava um emprego no Banco do Brasil, num concurso pĆŗblico ou numa grande empresa multinacional. HĆ” 30 e poucos anos nĆ£o se falava, nĆ£o havia a palavra ā€œempreendedorā€ no Brasil. Esse conceito era desconhecido. Uma pequena empresa era uma empresa de fundo de quintal. Na verdade, todo aprendizado sobre negócios antes do Sebrae era abordado sobre a perspectiva das grandes empresas. Rh, marketing, estratĆ©gia, diferencial competitivo eram exclusividades das grandes corporaƧƵes. E era isso que aprendĆ­amos na faculdade e nos MBAs.

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As pequenas empresas de fundo de quintal não tinham treinamento sobre negócios. Elas tinham um contador, e só.

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Meu pai tinha o ā€œseuā€ Almeida. AlĆ©m da contabilidade, ele orientava contrataƧƵes, intercedia para emprĆ©stimos no banco, sabia dos movimentos em BrasĆ­lia. Quando o seu Almeida chegava na firma todos aproximavam-se para escutar sobre os assuntos dos negócios. Over night. Ativo circulante. Edital pĆŗblico. Ele era uma autoridade para meu pai e seus funcionĆ”rios, mecĆ¢nicos humildes com as unhas pretas de óleo queimado. Na oficina precĆ”ria, no meio de tratores enormes sujos de graxa e barro, todos cuidavam para o Almeida nĆ£o sujar suas calƧas brancas onde ele sempre levava um pente pequeno no bolso de trĆ”s. Ā 

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O Almeida era vaidoso e sabia de tudo, mas calculou mal por anos os impostos devidos ao INSS pela empresa do meu pai. Quando fomos ver, devĆ­amos muito dinheiro e a empresa faliu. O contador sumiu.

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Acho que esse fantasma do Seu Almeida estava na minha cabeƧa quando fui trabalhar no Sebrae. Lembro dos longos anos de consultoria para milhares de pequenos negócios, por todo o Brasil, tentando localizar onde estava o problema daquelas empresas. Esses empreendedores precisavam aprender como cuidar melhor de seus próprios negóciosĀ dentro da realidade deles, no contexto deles. LĆ” no fundo, ao fazer esse trabalho eu tentava ā€œcurarā€ negócios para que eles nĆ£o morressem, como morreu a empresa do meu pai.


Ali por 1990, o Sebrae lançou o programa Brasil Empreendedor com treinamento gratuito e acesso a crédito para as MPEs. Espalhamos estratégias e ferramentas de negócios por todos os rincões do país. O Sebrae fez com que a pequena empresa e seus empreendedores ganhassem dignidade e oportunidade para serem reconhecidos por sua qualidade e competência. Todos empreendedores desse país devemos ao Sebrae por esse trabalho.

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Nessa experiência extrema eu me dei conta que, na grande maioria das vezes, os maiores problemas não estavam na empresa e seus processos. O principal problema estÔ no empreendedor. Fui percebendo que são suas emoções e traumas pessoais que dirigem o negócio. São as questões inconscientes e do Ego da pessoa que orientam as escolhas do negócio. Esses empreendedores são animais sociais tentando encontrar sentido para si mesmo através do seu empreendimento. O seu trabalho é sua projeção para o mundo.

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Hoje sei que os negócios podem nos fazer sofrer sim, como fez com o meu próprio pai. Mas, também sei que os empreendimentos que lançamos no mundo são o caminho para realizar sonhos, promover vocações e dar dignidade às nossas vidas.

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Naquele aeroporto de Brasília eu estava no lugar errado. Fui perceber meu propósito olhando para trÔs. Acho que não escolhemos propósitos. Eles é que nos escolhem. Depois de tantos anos, eu me dei conta que chegara até ali para manter empreendedores vivos. Para manter meu pai vivo. Essa é minha vocação.

Nome da empresa: Edgar Powarczuk Ltda.

Endereço comercial: Rua Marcelo Gama, 323 - Porto Alegre - RS - 90540-040

CPF: 439.102.460-87   CNPJ: 38.063.850/0001-01

Informações de contato: contato@ezuk.com.br - (51) 99374-8270

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