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  • Edgar Powarczuk

Todos somos moralistas

Quando falamos de moral não falamos sobre o que é certo ou errado. Isso é a ética. A ética vem do caráter pessoal guiada por um código ético que orienta um povo em determinado momento na sua história. A ética determina o que é certo e o que é errado fazer. Matar um cachorro cruelmente é errado fazer. Ajudar um cego atravessar a rua é certo fazer.



A moral é um conjunto de hábitos e costumes quase universais de uma sociedade. Coisas que são permitidas e coisas que são proibidas fazer. Somos guiados por uma coleção de sensos morais. Por exemplo: o fundamento da justiça/ reciprocidade; o fundamento do prejuízo/cuidado; o fundamento da autoridade/respeito; o fundamento da pureza/nojo (você vestiria o casaco que o próprio Hitler usou?); o fundamento da lealdade ao grupo.


Nesse ponto, todos somos moralistas. Se você ajuda um velhinho (senso de cuidado), se você gosta de ser respeitado na sua profissão (senso de autoridade), se você se revolta com a injustiça (senso de justiça), e não vestisse o casaco por nojo do Hitler (Senso de nojo), você está sendo moralista.


Mas, nossas virtudes nem sempre se encaixam em um sistema lógico. Reagimos de maneiras diferentes em uma situação e elas podem não ser compatíveis com o senso moral. Nosso cérebro está adaptado para um mundo despedaçado, não para um mundo harmonioso e perfeito. Os indivíduos tem uma pluralidade de eus morais que são evocados por contextos diferentes.


Entretanto, temos sim com forte uso de sermos mais moral possível ou de nos justificarmos quando nossa moralidade está em cheque. Ter um senso moral universal não significa que as pessoas sempre, ou até frequentemente, ajam de maneira boa e virtuosa. A questão é mais relacionada a quem admiramos do que o que fazemos, mais aos julgamentos que tecemos do que a nossa habilidade de viver de acordo com eles. No entanto, somos possuídos por uma profunda motivação de sermos, e de sermos vistos, como uma pessoa moral.


A visão racionalista nos sugere filosofar para nós tornarmos “mais morais”. A visão da intuição nos sugere interagir. É difícil ou impossível nos tornarmos "mais morais" sozinhos, mas com o passar dos séculos nossos ancestrais elaboraram hábitos e práticas que nos ajudam a reforçar nossas melhores intuições e escutar hábitos morais.


  • Regras de etiqueta: nos ajudam a ter auto controle.

  • Conversar: fofocar, postar, instituímos um milhão de pequenos marcadores sobre qual comportamento deve ser buscado e qual deve ser evitado.

  • Hábitos mentais transmitidos por instituições: o jornalismo, a medicina, o teatro.


No processo de absorver as regras das instituições que habitamos, nos tornamos quem somos. As instituições são espaços de ideia que existem antes de nascermos e que ainda vão perdurar quando formos embora. A natureza humana pode permanecer a mesma, mas as instituições melhoram e progridem porque são os armazéns da sabedoria conquistada a duras penas. A raça progride porque as instituições progredem. No processo de absorver as regras das instituições que habitamos, nos tornamos quem somos.


As instituições é que credenciam as carreiras. Não é apenas a experiência técnica adquirida ao longo dos anos que fez a Fernanda Montenegro uma grande atriz. Também foi a devoção à instituição teatro e respeito a todos que estavam ali antes dela.


Contudo, a ação moral não está presa nas profundezas do inconsciente. Temos uma responsabilidade individual. Como um músculo que usamos para o exercício contínuo de bons hábitos. Ou como uma câmera fotográfica que ora está no automático ora no manual. Ou seja, mesmo que tenhamos fundamentos morais automáticos, em momentos cruciais, podemos julgar por um processo mais lento de reflexão consciente.


Podemos escrever a narrativa que contamos sobre a nossa vida. Nascemos em culturas, nações e linguagens que não escolhemos. Nascemos com certos elementos químicos no cérebro e predisposições genéticas que não conseguimos controlar. Às vezes, somos inseridos em condições sociais que estamos. No entanto, entre todas as coisas que não conseguimos dominar, temos, sim, algum controle sobre nossas histórias.


Referências extraídas do livro “O homem social”, de David Brooks.


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