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  • Edgar Powarczuk

Vocação ou talento. Qual é o meu caminho?

Você conhece alguém que desde cedo soube o que iria fazer na vida? Alguém que já sabia qual seria sua profissão, enquanto você ainda nem sabia direito o que escolher no vestibular? E aí, você pensou com um pouco de inveja: "nossa, como eu queria saber minha vocação"!


Comigo foi assim. Meu primeiro vestibular foi para Agronomia. Era uma opção com algum sentido: ajudar na empresa do meu pai, que atuava nesse ramo. Eu não passei naquele vestibular. E não fui trabalhar na empresa do meu pai. A empresa sofreu uma crise. Meu pai ficou doente e morreu do coração aos 48 anos. Alguém me disse: “agora é tudo contigo, guri”. Eu assumi a culpa.


Naquela época, eu não tinha a menor noção, nem referências. Eu tinha inveja da Lavínia, minha colega no colégio. Ela queria ser médica. Aos 16 anos de idade ela sabia exatamente o que queria ser no futuro. (Hoje a Lavínia é uma reconhecida geneticista).


Como não invejar quem não precisasse passar por aquela sensação de descaminho que eu sentia? Eu sonhava ouvir um chamado claro: "Essa é tua vocação, Edgar". Mas eu não ouvia.


Infelizmente, naquele momento, ninguém me apontou um caminho. Ninguém me explicou a diferença entre a vocação e o talento.


A palavra "vocação" vem do latim “vocare” e quer dizer “chamar”. Vocação é um “chamado” que leva as pessoas a exercerem uma determinada carreira ou profissão. Tem uma inclinação para aquilo. Parece que nasceu pra fazer aquilo até. (tanto que em inglês "vocation" está ligado a seguir o sacerdócio!)


Talento é diferente. É a capacidade intelectual, uma aptidão que uma pessoa tem de desenvolver uma atividade com facilidade e habilidade. Tocar guitarra, resolver cubo mágico, resolver contas de cabeça.


Depois de anos de jornada eu tive que aprender sozinho que:


1. Não é preciso uma vocação para iniciar


Se você não tem uma vocação clara, não esquenta. Eu poderia encaminhar minha profissão mesmo que eu não escutasse nenhum chamado. Quando eu descobrisse o que eu sabia fazer bem, iria seguir pelos meus próprios talentos, mesmo que não tivesse uma inclinação, uma vocação. A gente pode se dar muito bem usando as nossas habilidades. Então, tudo que é preciso é trabalhar nelas e usá-las a teu favor, relacionar esses talentos a um objetivo de vida.


2. A vocação vai acontecer no caminho


A experiência e a maturidade vão te levar a usar teus talentos de forma mais consciente. É a partir daí que você vai descobrindo a tua vocação. Sim, a vocação é um senso de propósito, mas nem sempre precisa começar com um propósito claro. Quase sempre, ela vai ficando clara no caminho. Num caminho de auto-conhecimento. A vocação é algo no qual a gente se transforma.


3. A auto-realização se dá na vocação


Você pode conquistar o sucesso pessoal através dos teus talentos. Mas, a auto-realização de verdade se dá na vocação, não no talento.


4. A felicidade não é uma consequência natural na realização da vocação


Na vocação há um senso de fazer o que se gosta, mas nem sempre isso se impõe. O “chamado” requer sacrifício e concentração, gerando muitos eventos negativos e “infelizes”. A felicidade não é uma consequência natural na realização da vocação. A felicidade acontece em retrospectiva, pela excelência do resultado, que é seu impacto nos outros.


Enfim, eu cheguei até aqui por escolhas comoventes e tortuosas. Quando cheguei aos 50, eu fiz uma nova escolha. Uma escolha profissional. Iniciar um novo formato de carreira como mentor.

E, como aconteceu com meu pai, surgiu o medo da falência. Uma reputação a perder. Três filhos e dependentes para cuidar. Dar errado ...

Esse medo já passou.

Fui executivo de grandes empresas, consultor de pequenas e empreendedor. Me formei em comunicação, marketing e liderança. Sou mestre em administração. E faço formação em psicanálise. Vivo a minha vida pelos empreendedores.

Em todos esses anos eu trabalhei com a foto do meu pai na carteira.


E, num instante, depois de tantos anos, olho pra trás e me dou conta como cheguei até aqui: para manter empreendedores vivos. Para manter meu pai vivo.

Nós não escolhemos propósitos. Eles é que nos escolhem no transcorrer da jornada.

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