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  • Edgar Powarczuk

Você faz aquilo que ama?

É ótimo quando conseguimos conjugar a paixão pessoal com o trabalho! Os melhores exemplos estão por aí nas capas de revistas ou bombando nas redes sociais. Espelhados por exemplos de sucesso em carreiras e negócios, fomos entendendo que uma vida formidável parece ser resultado de um trabalho formidável. Idealizamos o trabalho. Assim, algo parece estar errado se você não está fazendo aquilo que ama. Se você tem um trabalho unlovable, prepare-se para ouvir que você é infeliz.

Esta tendência tem um nome: “Do What You Love” (DWYL). E gera uma boa porção de inquietações desafiadoras:


Indústria da felicidade


As economias ocidentais têm um problema: dependem, crescentemente, do envolvimento psicológico e emocional dos seus cidadãos no trabalho. A depressão de funcionários tem um gigantesco custo econômico. Por isso, a felicidade foi industrializada. No livro Happiness Industry, o autor William Davies fala que “o futuro do capitalismo de sucesso dependerá da nossa capacidade para combater o stress, a miséria, a doença e colocar o relaxamento, a felicidade e o bem-estar no local certo”. (1)


Armadilha do mercado


Não se deixe enganar. É mais fácil explorar trabalhadores convencidos de que fazem o que amam. O DWYL pode ser uma armadilha do mercado para explorar os incautos, “talvez a mais elegante ideologia contra o trabalhador”, segundo Miya Tokumitsu, em In the name of love. (2) Nesse embalo, faturam em cima do “amor” do funcionário. Empresas de moda, mídia e artes são especialistas nisso. Estes negócios estão acostumados a lidar com trabalhadores dispostos a trabalhar por moeda social em vez de salários reais, em nome do amor. Seria crueldade imaginar que usem isso na sua comunicação? Tipo: “compre o meu produto, porque aqui nesta empresa nós amamos o que fazemos!”


Síndrome de Estocolmo


O DWYL não está necessariamente associado a um chefe amável, trabalhar menos ou manter uma rotina extraordinária. Fosse isso, a rapaziada não largaria o emprego na agência de publicidade para seguir a carreira de chef de cozinha. O Hell’s Kitchen nos mostra que a rotina de um restaurante é hard, insalubre e com longas horas de trabalho. Há uma hierarquia rígida e difícil de ser galgada. Sim, todas essas formalidades terríveis de uma empresa comum. No entanto, os participantes lutam com unhas e dentes para terem a chance de serem massacrados por um chef nazista.


Masterchef: o sonho do publicitário Raul (C) é ser chef. Foto: Carol Gherardi / Band divulgação


Trabalho não glamoroso é algo menor


O DWYL é uma recompensa necessária ao “pessoal não muito afeito a aceitar ordens e cumprir prazos”, escreve Pedro Burgos no seu artigoNão se ache melhor porque você ganha a vida com o que gosta”. (3) Os trabalhadores da indústria ou escritórios corporativos que façam a parte menos glamorosa! Essa visão classifica o trabalho não glamoroso como algo menor e os trabalhadores nesta posição incapazes de amar o que fazem.


Alguém tem que fazer a parte não adorável


O DWYL existe porque outras pessoas mantém o funcionamento da sociedade, uma grande maioria de trabalhadores que é invisível para aqueles em suas ocupações adoráveis. Pense no crucial trabalho dos que cuidam de doentes, dos que instalam a internet ou que se penduram num caminhão para recolher o lixo, nestes que estão ralando para que outros concretizem o seu amor.


Um ato de amor-próprio


O DWYL é uma visão de mundo que disfarça o elitismo de alguns privilegiados em sua nobre busca de auto-aperfeiçoamento. De acordo com esta maneira de pensar, o trabalho não é algo que se faz para uma compensação, mas um ato de amor-próprio. Ou seja, se servir a mim mesmo nem precisa servir aos outros. Eu amo viajar, então vou ser um nômade digital. Eu adoro hambúrguer, cerveja artesanal, moda... Ótimo, mas faça a sua paixão e o seu negócio render ao menos para pagar a conta da energia. Negócios sem sustentabilidade financeira naufragam. Ou não são um negócio.


Referências


(1) William Davies. Happiness Industry. Em http://www.amazon.com/Happiness-Industry-Government-Business-Well-Being/dp/1781688451/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1436365345&sr=8-1&keywords=The+Happiness+Industry&pebp=1436365346437&perid=0ZHD5K0Y8CF6WXWDQ56K

(2) Miya Tokumitsu. In the name of love. Em https://www.jacobinmag.com/2014/01/in-the-name-of-love/

(3) Pedro Burgos. Não se ache melhor porque você ganha a vida com o que gosta. Em http://oene.com.br/nao-se-ache-muito-melhor-porque-voce-ganha-vida-com-o-que-gosta/

Cynthia D. Fisher. Happiness at work. Em http://epublications.bond.edu.au/cgi/viewcontent.cgi?article=1307&context=business_pubs

André Spicer e Carl Cederström. The Research We’ve Ignored About Happiness at Work. Em https://hbr.org/2015/07/the-research-weve-ignored-about-happiness-at-work

Joseph P. Forgas. On being happy and gullible: Mood effects on skepticism and the detection of deception. Em http://www.communicationcache.com/uploads/1/0/8/8/10887248/on_being_happy_and_gullible-_mood_effects_on_skepticism_and_the_detection_of_deception.pdf

Ott Jan. Did the Market Depress Happiness in the US? Journal of Happiness Studies , Volume 2 (4) – Dec 1, 2001. Em https://www.deepdyve.com/lp/springer-journals/did-the-market-depress-happiness-in-the-us-0cyKpdID0j


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