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  • Edgar Powarczuk

Julgue-me pelo meu comportamento, não pelo meu deus.

Moralidade e sabedoria não desceram do céu sobre a fronte de alguém especial. Coragem, liberdade, compaixão e igualdade são um legado ancestral construído por todos os humanos antes de nós. Por isso, esses são valores que trespassam qualquer humano, independentemente de sua religião. (Embora, aliás, quase todas religiões compartilhem desses ideais).

Assim pensam as pessoas chamadas "seculares".


Os seculares não saem por aí convertendo pessoas de que Deus não existe - muito menos para fazer grana com a oferta dízima dos (in)fiéis. Ao contrário, como diz Yuval, não reivindicam o monopólio da sabedoria e bondade como muitas seitas. Por força da sua racionalidade, os seculares são frequentemente assaltados por incertezas ou culpa. (Ah, se conseguíssemos crer de todo coração, dar um "salto na fé", como dizia o pastor Kierkegaard.)

Os seculares são low-profilers, então são vistos como aqueles que NÃO acreditam, não vão à igreja, não têm um deus ou um ritual pra seguir. Parecem pessoas sem valores morais decentes. Seriam um terreno desocupado, um vaso vazio e sem alma que precisa ser preenchido com algo melhor que sua vida ordinária. Por isso, seriam um mal a ser convertido.

Na real, “o homem secular tem um compromisso com a verdade que fundamenta a ciência moderna, que capacitou homem a fissionar o átomo, decifrar o genoma, rastrear a evolução da vida e compreender a história da própria humanidade.” Mas, idealizar esses valores tão complacentes e fundamentais não torna os seculares humanos melhores. Sempre precisaremos lidar com a falta de bússola moral ou comprometimento ético. Um ideal é algo difícil de ser correspondido.

Acontece que os seculares não têm um mandamento absoluto, não fazem o “que Deus ordena”. Usam a lógica da verdade, da sensatez e do exame meticuloso do contexto e dos sentimentos em busca do caminho do menor dano possível ao que é mais saudável, o bem-estar humano. “Na verdade, a história moderna demonstrou que uma sociedade de pessoas corajosas dispostas admitir sua ignorância e fazer perguntas difíceis geralmente não é apenas mais próspera como também mais pacífica do que a sociedades nas quais todos tem de aceitar uma única resposta sem questionar.“

A responsabilidade não está sob um Deus que pune os malvados e salva o justos. Somos nós os próprios responsáveis pela miséria do mundo e podemos combatê-la. Chegamos até aqui não por um protetor divino, mas graças a capacidade do nosso conhecimento e da nossa compaixão. E pela mesma responsabilidade devemos combater a degradação ecológica, o genocídio, as falhas da modernidade.

Além de guiar-se pela verdade (científica), o outro compromisso básico das pessoas seculares é com a compaixão. "A ética secular baseia-se em não obedecer aos preceitos deste ou daquele deus, e sim uma profunda apreciação do sofrimento. Por exemplo, pessoas seculares abstêm-se de assassinar não porque algum livro antigo proíbe, mas por que o ato de matar inflige imenso sofrimento a seres sencientes. Existe algo profundamente perturbador e perigoso no que tange a pessoas que evitam matar só porque 'Deus diz assim'. São pessoas motivadas mais por obediência do que por compaixão, e o que farão elas se vierem acreditar que seu Deus ordena que matem hereges, bruxas, ou estrangeiros?"

Como já é observado, nenhum desses valores é exclusivamente secular. Judeus também dão valor a verdade, cristãos valorizam a compaixão, muçulmanos valorizam a igualdade, hindus o valor a responsabilidade, e assim por diante. Sociedades e instituições seculares ficam felizes de reconhecer essas conexões e de acolher religiosos judeus, cristãos, muçulmanos, contanto que quando o código secular colidir com a doutrina religiosa, esta deve abrir passagem. Por exemplo, para judeus ortodoxos serem aceitos na sociedade secular espera-se que tratem os não judeus como iguais, cristãos evitem queimar hereges na estaca, muçulmanos passem a respeitar a liberdade de expressão e hindus precisariam abolir a discriminação das castas.

Em contraste, não se espera que as pessoas religiosas neguem a existência de Deus ou abandonem seus ritos e rituais tradicionais. O mundo secular julga as pessoas com base em seu comportamento, e não em suas roupas e cerimônias favoritas.

“Da mesma maneira, educação secular não quer dizer uma doutrinação negativa, que ensina crianças a não acreditar em Deus e não participar de quaisquer cerimônias religiosas. E sim, a educação secular ensinar as crianças a distinguir verdade de crença; a desenvolver sua compaixão por todos os seres que sofrem; a apreciar a sabedoria e as experiências de todos os habitantes da Terra; a pensar livremente sem temer o desconhecido; a assumir responsabilidade por suas ações e pelo mundo como um todo”.

Com citações de Yuval Noah Harari, do livro 21 lições para o século 21.

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